O anti-jornal
Parece, portanto, extremamente difícil reduzir o mito pelo interior, pois o próprio movimento de libertação fica por sua vez cativo do mito: o mito pode sempre, em última instância, significa a resistência que se lhe opõe. Para dizer a verdade, a melhor arma contra o mito é talvez mitificá-lo a ele próprio, é produzir um mito artificial: e este mito reconstituído será uma verdadeira mitologia. Visto que o mito rouba linguagem, porque não roubá-lo também? Bastará, para isso, colocá-lo como ponto de partida de uma terceira cadeia semiológica, considerar sua significação como primeiro termo de um segundo mito. (BARTHES, 1989, p. 156)
Se em alguma medida evidenciamos a forma própria ao jornal sua concisão, catalogação aleatória de fatos e eventos, o real como aquilo que é diretamente arbitrário; o amálgama e o pastiche, o poder dramático da imagem , não é para afirmar seus termos ou para aceitar suas metas, que flertam com a heteronomia, mas para reproduzi-la pelo avesso. Nosso alvo é a subversão e a perversão de tudo aquilo que é próprio ao jornal; a exposição de seus ângulos obtusos, as pequenas e, por isso mesmo, portentosas vilanias; as cadeias simbólicas sub-reptícias; seus propósitos subliminarmente totalitários, sob a roupagem do mais puro republicanismo. No seu formato ligeiro tudo está diretamente pronto para o consumo, e mesmo a filosofia, a arte, o cinema e a política são apenas uma taxonomia de salão, de modo que é possível discorrer sobre tudo, como se de fato o mundo estivesse organizado para realizar o gosto burguês e suas metas, onde todo o conhecimento não é mais do que verniz, bons modos e escusas, para a forma rígida, violenta e incivilizada do poder.
O jornal, na justa medida em que informa, é a usurpação de um lugar vazio: através dele o mundo é convertido em opinião e pensamento, não do editor, mas de uma categoria abstrata que é artificialmente materializada a opinião pública. Todo artigo, portanto, ainda que assinado, através da forma mesma do jornal, converte-se, a um só tempo, em pensamento de um autor e reverberação de uma reflexão coletiva. Aquilo que é individual e subjetivo deságua, deste modo, no imenso oceano do indiferenciado; o que só faz afirmar que toda particularidade se reduz a uma massa amorfa, confirmada no plano oposto pela redução da leitura a uma recordação que se mantém no registro do que é aleatório e múltiplo. No jornal, a rememoração é, portanto, um esquecimento; a articulação intelectual um discurso livre e diletante; o raciocínio um fragmento que se pode perder a qualquer momento, bastando para tanto que a atenção seja reclamada por outra fonte de estímulo (choque). A isso o jornal não pode se opor, pois é, como um todo, e mesmo que a contragosto, uma caçada ao olho; a disputa do cliente por parte da matéria; feira livre, que se resolve no consumo, segundo a inclinação de momento e o poder de vocalizar do vendedor.
A doce vida
http://br.youtube.com/watch?v=L4ibeR0t42A
(Fellini, 1960)
http://en.wikipedia.org/wiki/La_dolce_vita
No jornal impõe-se, portanto, um vaticínio, e todo conteúdo está condenado pela forma: o jornal é uma elaboração gráfica, cujos aspectos invariantes lançam qualquer subject à indiferença universal e à monotonia. Como graficamente tudo permanece o mesmo, nos elementos rígidos da diagramação, o olho não diferencia o que é particular ou específico. A importância relativa de cada matéria é conferida, então, pelo tamanho do corpo do texto (e especialmente da chamada), pela imagem associada e por sua posição relativa por entre as cessões, às expensas de seu conteúdo, de tal modo que olho vaga pelo jornal, como quem percorre um sistema imagético. Nisso o grafismo do jornal se assemelha ao sistema de orientação de trânsito: tão logo o olho se tenha acostumado aos signos, às placas de indicação, ao repetir-se do trajeto, toda a atenção passa a existir para ser imediatamente perdida. O caminho, portanto, é uma prática hipnótica, que se constitui em memória apenas se for, ao mesmo tempo, uma difusão do olho no espaço indiferenciado, com o que cada momento singular e descontínuo é reduzido a um meio termo entre a vigília e o sonho.
Metropolis
(Fritz Lang, 1927)
O segredo do jornal, portanto, está no desencaminhamento do olho, que é convidado a perder-se por entre as imagens; a evadir-se durante o enduro em que se pratica sua estimulação contínua e frenética; uma excitação que leva à exaustão mental e à expropriação da visão. Na sujeição do olho, em sua submissão à imagem, o cérebro é tomado de assalto e operado a partir de fora, afirmando-se diretamente as metas distópicas da ordem, cujo delírio de poder mais acabado e acalentado é o autômato. No imenso desse poder o jornal é apenas, contudo, uma elaboração conseqüente e correlata do urbanismo; da paisagem apropriada segundo um passeio de carro: um propósito funcional para as formas aleatórias que o olho percebe, enquanto flanando nos trajetos e atividades mecânicos a que a vida obriga. O poder do jornal é, portanto, e de modo imediato, a afirmação da natureza heterônoma da própria vida social, da qual tomou a forma e a fórmula, para ser imediatamente reconhecível e evitar a resistência1.
O jornal, contudo, é apenas a antecipação e a forma primeira do meio de comunicação de massa como artefato distópico; como construção intelectual para as metas da heteronomia. Ele foi e é continuamente superado por outros meios, de que a televisão é apenas um exemplo provisório. Cada novo desenvolvimento no mesmo sentido (heterônomo) condiciona tudo que o antecedeu, de tal maneira que, ao fim e ao cabo, o jornal propende, como forma, às definições da internet. Nessa revolução contínua, em lugar de se oporem, os meios de comunicação se rendem incondicionalmente aos ditames do que é mais recente, realizando a submissão irrestrita da comunicação ao que há de mais degradado do ponto de vista formal. Por meio deste processo de desenvolvimento do meio de comunicação, tudo que foi concebido para compor uma unidade se converte, irremediavelmente, em um estilhaço; redução esta a que o meio de comunicação obriga. O anti-jornal é como meta, portanto, o caminho de volta do fragmento; uma revolta não contra a ausência de sentido do real, mas contra as configurações filosóficas e estéticas que tornam impossível a fruição do que há de libertário neste movimento.
* * *
Circulação mundial de jornais aumenta 1,9% em 2006
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi1105200731.htm
(Link exclusivo para assinantes da Folha de São Paulo)
Sítio aberto alternativo:
http://www.fsb.com.br/index.php?conteudo=by_mercado&id=11
1 A recepção do jornal, justamente por se fundar na condição do transeunte, deve ter por elemento central o conceito de choque. A rigor a partir do o choque o organismo cria um conjunto de respostas automáticas a estímulos, de modo a preservar sua energia, evitando que ela se desvie continuamente para o exterior. Trata-se de uma interpretação, uma leitura, virtualmente instantânea de classes de acontecimento que o indivíduo reconhece e classifica por afinidade. Ocorre sempre, então, uma atenção distraída, de tal modo que o indivíduo é chamado à cena para, no momento seguinte, dela evadir-se. É exatamente por isso que a informação massiva veiculada pelo jornal não traz novidade alguma: em sua novidade radical ela é lida sempre e recorrentemente como o mesmo evento, não trazendo ao leitor, efetivamente, qualquer experiência nova. orre,econhece e classifica por afinidade.iviormo, evitando ue ao ara os equar fundamentado naquele rosto degradado e dilacerad
0 comentários:
Postar um comentário